
Ontem ouvi um comentador do programa televisivo O Eixo do Mal, da SIC Notícias, dizer convicto e em tom displicente que no caso da criança Esmeralda e em geral nos casos judiciais em que há uma divergência entre os magistrados e os técnicos especialistas, existia uma dúvida legítima sobre as ciências que não eram exactas ou nem sequer eram ciências e que por isso não deviam ser tidas em consideração. Há dias assim, nem sempre se pode estar inspirado, e isso reconheço poder ter sido a situação do comentador cuja participação no referido programa aprecio com agrado, sempre que não tenho mais nada para fazer do que me entregar ao prazer dum sofá defronte à janela para o mundo, com todos os riscos que dessa indulgência podem advir.
Não farei comentários sobre competências técnicas em causa da lamentável situação real do caso da criança, a Esmeralda, tornado público pelos média; não vale a pena repetir aquilo que os especialistas de saúde mental infantil já relataram acerca deste caso.
O que me quero realçar neste comentário é que o tal Senhor comentador, que além de confundir a pedopsiquiatria (ramo da medicina especializado em psiquiatria infantil) com a psicologia, utilizou para desvalorizar os pareceres técnicos um neologismo carregado de ironia, aparentemente fina e inteligente: os criançólogos, disse o tal senhor. E lá discorreu sobre o tema assim como alguém que sabe em absoluto do que fala, olvidando que o seu saber sobre esta temática é muito mais subjectivo do que a subjectividade que criticava, além de não estar mais do que fundamentado sobre a sua própria opinião, a qual respeito mas com a qual não posso concordar.
Talvez esse Senhor comentador quisesse dizer que seria melhor que as decisões judiciais, também elas subjectivas (ou será o Direito uma ciência exacta?), ganhariam mais em serem fundamentadas na mera opinião dos homens que julgam, discurando os saberes dos peritos que permitem esclarecer os magistrados sobre aspectos que não dominam e que podem ser cruciais para o processo de decisão judicial.
Esqueceu também o Senhor comentador que, na posição de comunicador ouvido por milhares de pessoas, tem uma responsabilidade pedagógica que implica pelo menos assumir com humildade que aquela era apenas uma mera opinião pessoal e que não representava, nem podia representar, o consenso da comunidade científica.
Neste caso particular, que representa muito daquilo que se faz impunemente na televisão comentada, não posso aceitar indiferente que se faça tábua-rasa das últimas décadas (pelo menos) de produção de conhecimentos compilados e validados pela metodologia de investigação científica actualmente em vigor; tentar fazer passar por meio de um mero comentário televisivo uma certa visão de senso comum, ainda por cima meramente pessoal, é tentar colocar absurdamente em causa precisamente aquilo que o conhecimento científico sistematizou a partir do caos. Mas no entretenimento tudo é possível, e a televisão comercial é (infelizmente cada vez mais) disso paradigma.
Se aquele senhor fosse um cientista, teria que comprovar a sua tese precisamente através do método que suporta a validade das ciências que criticou. Como não é cientista, nem sequer um técnico das áreas por si opinadas, ficamos apenas com o conhecimento superficial que demonstrou possuir acerca das ciências e da produção científica em geral. E como uma mentira (ou uma asneira) repetida muitas vezes pode passar a ser uma verdade, convém desconstruí-la logo à partida.
A propósito, faço então um esclarecimento sumário daquilo que diferencia as ciências exactas das ciências humanas, reconhecidas que são ambas como ciências por via do método de investigação teórico-prático em que se fundamentam.
Existem outras denominações comuns para as ciências exactas, como seja “ciências puras” ou “ciências fundamentais”. Como exemplo das ciências exactas temos a matemática, a física, a geologia, a química e alguns ramos da biologia.
No âmbito das Ciências Exactas incluem-se a matemática e todas aquelas ciências que além de se sustentarem na observação e na experimentação, podem ser sistematizadas através da expressão dos seus constructos com total objectividade por via de uma linguagem definida operacionalmente e do rigor matemático absoluto.
Assim sendo, as ciências exactas admitem predições especialmente precisas e aqui reside a diferença relativamente às ciências Humanas.
Mas tal como acontece nas ciências humanas, as ciências exactas utilizam métodos rigorosos (na metodologia de investigação científica pretende-se rejeitar a H0 – Hipótese Nula) de modo a que seja possível (altamente provável com um grau de erro reduzido) confirmar as hipóteses formuladas mediante deduções ou conclusões demonstráveis e irrefutáveis (ou razoávelmente irrefutáveis). A validade dos constructos de uma ciência, seja Exacta ou Humana, está permanentemente sujeito a experiências repetíveis (ou replicáveis) em que as medidas e as predições são objectivamente quantificáveis, sejam elas irrefutáveis ou sejam altamente prováveis com elevado grau de confiança (geralmente aceita-se um alfa menor que 0,05).
O termo “ciência exacta” implica uma diferença fundamental entre as ciências exactas e as ciências humanas, como por exemplo as diferenças entre a matemática e a química relativamente à medicina ou a psicologia. Nas ciências humanas a experimentação matemática e a predição existem mas não possuem um papel tão relevante e não produzem, nem procuram normalmente produzir, resultados que sejam calculados dum modo absoluto como no caso das ciências exactas (também chamadas de fundamentais ou puras); o motivo é simples: as ciências humanas encerram em si mesmas um certo grau de subjectividade em virtude da idiossincrasia do seu objecto de estudo (o Ser Humano).
No entanto existem pontos em comum, entre eles a validação, já que as ciências humanas partilham com as ciências exactas o mesmo método para a rejeição ou de não rejeição das hipóteses, através da utilização da mesma metodologia de investigação científica e de análise estatística; a diferença essencial centram-se no grau de certeza ou de probabilidade da predição em face da particularidade dos resultados obtidos em função do objecto de estudo.
De facto, o que se passa hoje em dia é que a denominação de ciências exactas está em desuso por vários motivos; um deles é que a validação dos constructos científicos de qualquer ciência reconhecida como tal está baseada na metodologia de investigação científica suportada em constructos teórico-práticos bem definidos, que incluem a estatística ou as relações de probabilidade sistematizada, demonstrável e replicável, sendo tais procedimentos a base de trabalho comum às ciências exactas e a numerosas ciências humanas.