
Algo está podre na República Democrática de Timor-Leste...
Qual a influência australiana e dos seus aliados em Timor-Leste, para que serve e a quem serve? À existência independente do Estado de Timor ou antes pelo contrário? Afinal a Austrália não é membro das Nações Unidas? Então como se explica que se mantenha à margem dos objectivos da Missão Integrada da ONU no território timorense?
Portugal tem uma obrigação histórica, afectiva, moral e política de auxiliar o Estado de Timor-Leste a consolidar-se plenamente. Esse caminho é ainda longo, mas não há que ter nesse assunto quaisquer hesitações: os timorenses pedem ajuda a Portugal e, ao contrário do que tem sucedido entre procrastinações para “pensar”, o governo dos aliados lusos devem imediatamente agir. Doutro modo será a Austrália a pensar pelos timorenses e a agir em função dos seus próprios interesses.
Desconheço quais os acordos secretos, ou subentendidos, que vigoram nos corredores diplomáticos acerca da influência regional de Camberra naquela zona do mundo e que levam a que o Estado Português aceite desempenhar um papel terciário em Timor-Leste.
Bem se vê como tem decorrido o processo político, económico e social na consolidação da democracia timorense. O sinal mais claro da influência australiana foi dado, em Fevereiro de 2007, pelo parlamento timorense: a rectificação do acordo de exploração e partilha das receitas de dois dos maiores campos de petróleo do Mar de Timor, denominados de
Greater Sunrise e
Bayu Undan.
Estranha coincidência sobre influências: aquela rectificação era uma intenção de Ramos Horta quando tomou posse como primeiro-ministro apoiado pela Austrália, antes de trocar de lugar com Xanana Gusmão.
Outra coincidência: hoje, supostamente ambos foram alvos de atentados, nos quais Xanana Gusmão saiu ileso, Ramos Horta foi gravemente ferido, tendo morrido apenas um major dissidente anteriormente formado na Austrália. O mesmo "rebelde" que liderou um grupo de militares descontentes e a quem tem sido permitido o estatuto de Robin-dos-bosques, com embaraços óbvios para o governo de Timor. Hoje, eventualmente terá tentado um Golpe de Estado que falhou entre muitas incógnitas ainda por esclarecer.
O mais bizarro nesta situação é que a permanência das forças australianas em Timor-Leste foi legitimada a pedido e com a anuência de ambos Senhores Ramos Horta e Xanana Gusmão, os mesmos que hoje sofreram um atentado (quase mortal para um deles) por parte de dessidentes liderados por uma "criatura" rebelde, treinada pelos australianos. Deve ser moda, o feitiço virar-se contra o feiticeiro...no entanto, nem tudo o que parece é e nem tudo o que é, parece.
Por agora, todos os interveniente se vêm livres de um problema imediato: o fim do rebelde "major Alfredo Reinado", que corre o risco (ou a vã glória) de ser coroado como mártir pelos descontentes mais radicais. E estes são muitos, precisamente porque a pobreza em que se encontra o povo, em múltiplos aspectos, é enorme.
Na situação extremamente frágil no campo social, económico e até político, a Igreja Católica também desaproveitou a fé nela depositada, e como tal deve assumir responsabilidades e daí agir em consequência mostrando a face como Cristo: em Timor falta a formação de quadros, o planeamento estratégico, o investimento económico, a organização das forças armadas, a efectiva unicidade da noção de Estado, a instrução popular para a cultura democrática. Nestes aspectos também as ONG`s e a CPLP estão bem longe daquilo que poderia ser a sua função. Mas não estão sozinhas: a comunidade internacional, a começar na ONU, continua inoperante, principalmente por influência dos EUA e da Austrália.
Entretanto Portugal aceita cumprir um papel subserviente aos interesses da Austrália, e dos seus aliados, ao invés de assumir a liderança no cumprimento da missão que foi decidida pelo Conselho de Segurança aquando a aprovação do Plano do processo de Independência de Timor-Leste.
É certo que a Austrália, por óbvias vantagens e razões estratégicas, se adiantou a tudo e a todos aquando da intervenção militar pós referendo. Tratava-se naquele tempo de uma premência necessária por força da violência que eclodiu quando a Indonésia percebeu que havia perdido o referendo sobre a independência. Pena é que esses mesmos australianos não tenham tido a mesma atitude nos anos 70, quando a Indonésia invadiu Timor; talvez nesse tempo aos políticos da terra dos cangurus só lhes cheirasse ao mau odor do napalm que incinerava os corpos e não ao inebriante aroma dos milhões de dólares australianos que vão agora obter dos poços petrolíferos do mar de Timor, e que continuam a ser motivo para tomarem a liderança militar, e logo estratégica, de influência sobre situação política Timorense.
Convém recordar nesta equação confusa da situação timorense a imposição de Camberra tem sido fortemente criticado pela FRETILIN que acusa os militares australianos de condicionarem a política interna de Timor-Leste. Ora aqui está um potencial “suspeito do costume”, vamos lá a ver como se desenrola este rendilhado maquiavélico.
Mas para complicar as eventuais futuras investigações, surgem as notícias de que Ramos-Horta terá sido baleado uma hora depois do guerrilheiro major dissidente protegido pela Austrália já estar morto, que o rebelde abatido foi filmado e a imagem emitida "tratada" (por quem e como foi isso possível numa situação de emergência?),tudo isto entre mais coincidências operacionais, ausências na protecção e silêncios dos militares da guarnição australiana, que segundo as chefias militares timorenses, haviam sido préviamente informados de movimentações estranhas que indiciariam um atentado a Ramos Horta. Além disto, como se entendem 2 tiroteios na casa do Presidente com uma hora de intervalo sem quaiquer pedidos de ajuda de permeio às forças portuguesas da GNR e outras demais confusões e poeiras que se levantaram no decorrer deste atribulado dia?
Enquanto o pó assenta e a ONU e Portugal agem (ou algo vagamente semelhante) como sempre, os australianos já anunciaram o envio imediato de mais 200 militares e polícias para o território timorense. Segundo afirmam os autralianos, tal foi-lhes solicitado "pelo Estado de Timor", supõe-se que pelo Governo do Primeiro-Ministro Xanana Gusmão. Esperemos pois que façam por ser isentos e cumpram as obrigações anteriormente assumidas, e que não decidam agir como quem faz o que pode, o que quer e a quem quer.
Pelo menos, no meio de tudo até agora tem havido a decência de não se usar o vocábulo “terrorismo”. Mas no Tempo em que todos os meios justificam os fins, nada me surpreende.