
A PSP de Braga apreendeu hoje, 24 de Fevereiro de 2009, cinco exemplares de um livro sobre pintura. Os letrados agentes da autoridade bracarenses consideraram como "pornográficos" os exemplares apreendidos, colocados à venda numa feira de livros, cujas capas continham uma reprodução de um quadro do pintor Gustave Courbet. O livro em causa é a edição portuguesa do Pornocracia, da escritora Catherine Breillat.
A figura da capa da edição em causa é uma réplica de um quadro do pintor oitocentista Gustave Courbet - tido como fundador do realismo em pintura - pintura essa que expõe as coxas e o sexo de uma mulher sendo, por isso, a sua obra mais conhecida (mas não a melhor). Pintado em 1866, o quadro em causa está exposto no Museu D'Orsay em Paris.
Gustave Courbet, um socialista convicto, ao representar frontalmente as coxas e o sexo de uma mulher, com o quadro "A Origem do Mundo" abalou profundamente o meio artístico, tendo a sua exposição pública sido proibida na época. Isto ocorreu em 1866, portanto à 143 anos atrás.
Mudam as épocas mas permanece o puritanismo, a ignorância e a hipocrisia. A propósito desta característica humana e como disse François de La Rochefoucauld: "A hipocrisia é a homenagem que o vício presta à virtude". Ou seja, todo hipócrita - e aqueles senhores e senhoras de Braga não são excepção - finge emular comportamentos correctos, virtuosos, socialmente aceites. Quando aquela crença fingida se completa com a ignorância e o puritanismo o resultado é quase sempre uma qualquer forma de fundamentalismo (político, religioso, moralista, etc.).
Resumindo este lamentável acontecimento de hoje: ao final do dia, o Ministério Público ordenou a devolução dos livros apreendidos - leia-se censurados - e anulou o auto da apreensão efectuada pela PSP.
Como sucedeu com a descarada censura do Ministério Público - depois corrigida - que ocorreu no Carnaval de Torres Vedras (onde uma sátira ao computador Magalhães foi censurada, exactamente com a mesma argumentação de ser "pornográfica"), fica cada vez mais evidente que a Liberdade de Expressão, e desde logo a própria Democracia, implica muita participação de todos e constrói-se permanentemente pelo que não é, nem está, adquirida.
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