
Hoje, enquanto conversava com uma amiga de longa data, dei por mim defendendo a necessidade de fazer em Portugal uma grande revolução na ordem para evitar aquela outra que outros fatalmente poderão vir a fazer na desordem. Defendi que é preciso sentir a mesma ânsia de reforma e renovação construtiva que preconizou outros momentos da nossa história em que a nação se rejuvenesceu.
Para o efeito, há que distinguir os preconceitos dos princípios no actual estado da nossa civilização: sentir a revolta interior contra a injustiça, a imoralidade, a mentira, a hipocrisia, o parasitismo que vemos campear na vida política, económica, financeira e social do nosso país; reconhecer e afastar aqueles que vivem à sombra de venerandas mentiras sustentadas por indivíduos ou classes incapazes de se regenerar.
Há também que ter a coragem de não confundir nem comprometer o que existe de eternamente são, verdadeiro e belo, na nossa Sociedade, diluindo a crosta de erros, abusos e degenerescência que não são da sua essência nem constituem a sua força colectiva.
Onde encontrar os agentes dessa mudança? Na esquerda? Na direita? No centro? Onde quer que haja cidadãos desinteressados e nobres, consciências limpas e rectas, corações sedentos de verdade e de justiça, portugueses amantes de Portugal, nós podemos encontrar pontos de contacto, simpatias, solidariedades, apoio para a mudança de que necessitamos.
É cada vez mais evidente que existe uma profunda crise, para começar na Crise de Valores: estes sumiram-se, por anos seguidos de gastos públicos excessivos, de abusos impunes e actos de consumo impulsivos, numa exponencial orgia das notas e de crédito fácil; a organização do trabalho e da produção de riqueza perturbou-se gravemente e mostrou recentemente as consequências cada vez mais dramáticas das suas deficiências estruturais; a loucura das modas consumistas em tudo acrescentou o declínio até à demência colectiva, a começar pelas importações escusáveis e no endividamento externo; o desemprego vem cada vez mais como o último flagelo, inserido numa economia que abranda cada vez mais e se fragmenta numa globalização implacável.
O futuro mostra-se incerto, mas de facto é previsível: os nossos filhos terão mais dificuldades do aquelas que nós possuímos agora. Os anos vindouros serão de vacas magras e isso implica que se aprenda desde já a lidar com a realidade da carência de recursos.
Concordo com a tese implícita no último discurso de Ano Novo do Presidente da República: a um sistema de administração em que predomina a falta de sinceridade e de luz, impõe-se uma política de verdade. Tal é essencial para o restabelecimento do sentimento de confiança, absolutamente imprescindível para o bom funcionamento individual e colectivo e, desde logo Institucional, em suma de tudo, do todo que compõe a estrutura basilar de uma nação como Portugal.
Num sistema de vida social em que só os direitos assistencialistas competem sem contrapartida com os deveres contributivos, em que comodismos e as facilidades político-económicas se apresentam como a melhor regra de vida, anuncia-se, como condição necessária de salvamento, uma politica de elevada moral e ética doutrinária, de exigência, de rigor, disciplina e sacrifício. Uma Democracia que se deixa devorar pela fluidez dos seus desígnios colectivos e degeneração dos fundamentos éticos da sua Política corre o risco de implosão e, desde logo, de continar sendo uma verdadeira democracia.
Num Estado que foi dividido e deixado dividir-se em irredutibilidades sociais e em grupos de interesses, é cada vez mais necessária uma doutrina que restaure o sentido e a força de uma política verdadeiramente nacional que não repouse sobre várias mentiras: a mentira das previsões orçamentais, a mentira das promessas eleitorais, a mentira da Justiça, a mentira da Educação, a mentira da força pública do Estado, a mentira disciplinar, legislativa e de segurança dos cidadãos, a mentira do Estado Providência e providencial, a mentira da Saúde para todos, a mentira da justa tributação, a mentira dos investimentos faraónicos como modelo de desenvolvimento sustentado, e assim por diante.
Como se faz uma tal reforma - ou revolução - do País e das suas Instituições? A nossa história ensinou-nos como isso sucede, basta que percebamos até onde, infelizmente, teremos que chegar para que tal aconteça.
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