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sábado, 20 de setembro de 2008

Opinião pública, senso comum e auto-estima.





Há já muito tempo que os filósofos sugeriram que, quando começamos a escrutinar as opiniões dos outros, nos sujeitamos a fazer uma descoberta simultaneamente triste e curiosamente libertadora: as opiniões da maioria das pessoas sobre a maioria dos assuntos são extraordinariamente erróneas e confusas.

Correndo o risco de soar como um misantropo, sou forçado a concluir o mesmo que Chamfort: «a opinião pública é a pior de todas as opiniões»; e penso que podemos ainda acrescentar: o senso comum é o corolário daquela opinião pública e a justiça popular o seu braço armado.

O que explica aquela conclusão? Logo para começar, a relutância do público em submeter os seus pensamentos ao rigor de um exame racional e, pelo contrário, fundamentá-los meramente na sua fé ou na intuição, na emoção e no hábito.

O senso comum não passa geralmente de falta de senso visto que enferma de simplismo e de ilogismo, de preconceito e vacuidade.

Quando li Schopenhauer concluí tal como ele que acabaremos por tornar-nos indiferentes ao que se passa nas cabeças das outras pessoas à medida que formos adquirindo um conhecimento adequado da natureza fútil e superficial dos seus pensamentos, da estreiteza das suas opiniões, da torpeza dos seus sentimentos e da quantidade de erros em que incorrem.

Quando atingimos aquela consciência vemos então que quem atribui muito valor às opiniões dos outros lhes estará a reconhecer uma importância que não merecem.

Além disso, que dizer das opiniões emanadas de um povo cujo principal entretenimento é o jogo, as telenovelas e o endividamento consumista? Isto diz bem do valor de uma sociedade e da anunciada falência das ideias e dos pensamentos.

Será que devemos levar a opinião daquelas pessoas a sério?

Podemos realmente permitir que tais veredictos determinem aquilo que fazemos das nossas vidas, como dedicarmo-nos à ciência ou ao voluntariado ao invés de passarmos todo o tempo dedicado ao futebol ou não mudarmos de carro de 2 em 2 anos, evitando assim mergulhar acriticamente na escravidão do endividamento, só porque o vizinho do lado também o faz?

Poderá a nossa auto-estima ser justamente sacrificada a um grupo de treinadores de bancada e de jogadores da sorte e do azar, de telespectadores de romances enlatados e de escravos do consumo? E mesmo que estas pessoas viessem a respeitar os caminhos da vida que decidimos prosseguir, quanto é que vale um tal respeito?

Ou como escreveu Schopenhauer, «Será que um músico se sentiria lisonjeado pelos aplausos da plateia sabendo que ela era maioritariamente constituída por surdos?»

Fica pois, desde já, uma consolação: Uma reprovação pública só poderá magoar-nos na medida em que atinge o alvo.

Só aquilo que for simultaneamente condenatório e verdadeiro é que deve ser autorizado a abalar a nossa auto-estima. Quem souber, em plena consciência, que não merece reprovação pode e deve encará-la com desprezo.

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