
Mesmo que o plano
Paulson de controlo da crise financeira proposto pela administração Bush - que já se sabe irá custar muito mais do que 700 mil milhões de dólares - venha a ser aprovado pelo Senado e pelo congresso dos EUA, isso não significa que ficam controlados os problemas financeiros actuais nem que está conseguida a eliminação da ameaça de estagnação (ou algo bem pior) para a economia mundial.
Quem nos faz reflectir sobre esta probabilidade não é uma qualquer publicação esquerdista ou umas quaisquer bocas internauticas mas sim a muito conservadora e prestigiada revista
The Economist num artigo que vale bem a pena ler.
Também aqui na Europa, tal como na Ásia, as injecções de capital de emergência por parte dos bancos centrais sucedem-se dia após dia. São sinais muito claros de que a situação está à beira do colapso, mas que mesmo assim ainda se tenta a todo o custo evitar o pânico generalizado e atenuar o impacto das asneiras neoliberais no custo de vida dos cidadãos, actual e futuro.
No entanto, é certo que todo o esforço de contenção dos danos e de maior regulação da actividade financeira por parte dos governos e bancos centrais far-se-á pagar na totalidade, seja por esta geração seja pelas vindouras. Resta ver com que intensidade e durante quanto tempo.
No imediato podemos desde já concluir que a actual fúria de venda de activos - por parte das instituições financeiras em apuros - apenas agrava os seus problemas, entre eles a confiança dos investidores e das outras instituições de crédito, forçando a venda de mais activos e assim por diante.
Parece também evidente que as dificuldades dos bancos de investimento dos EUA afectam os seus
hedge funds por sua vez fortemente ligados às actividades de negócio dos bancos comerciais. E neste aspecto todo o espectro financeiro mundial parece afectado, não se sabendo ainda a que nível exacto.
Mas mesmo com a contenção do medo instalado após a rebentamento da bolha especulativa do ciclo económico que agora termina, existe ainda o perigo adicional provocado por novos problemas na área financeira, isto porque as famílias e as empresas continuam sequiosas de crédito, seja este devido a hábitos desajustados de consumo ou seja pela pura necessidade de sobrevivência.
Hoje, as hipotecas são o problema actual mais relevante, mas no próximo ano a preocupação muito bem vir a ser com os cartões de crédito, o financiamento de automóveis e a dívida corporativa. Daqui até a novos aumentos das taxas de juro por força das pressões inflacionistas, ao acréscimo nas taxas de esforço para as famílias, à redução do consumo económico, à estagnação da produção, ao desemprego, ao incremento dos custos de apoio social e consequente aumento (ou impossibilidade de redução) de impostos, vai um fogo de palha. Cá como lá, maior contestação popular e mais instabilidade governativa é uma possibilidade não despicienda, caso um tal cenário se concretize.
Aguardemos para ver se a inflação americana será efectivamente controlada, porque senão a constipação poderá vir a ser uma virose altamente contagiosa e ao invés de uma Recessão estaremos a braços com uma Depressão, sendo isso um problema não só para os americanos mas de todos nós. É todo um ciclo vicioso de destruição de valor que poderá afectar toda a restante actividade económica globalizada, do topo até à base.
Resta às instituições governamentais a
reposição da confiança de modo a aliviar os sentimentos de medo e ansiedade antecipatória, que esporadicamente tendem a culminar nos picos de pânico que conhecemos como
crash, para já não falar sobre as consequências dos levantamentos em massa dos depositantes.
O restabelecimento da confiança deve ser baseada na honestidade e na clarificação da verdade económica, a começar pela da
educação dos consumidores. Esta será uma medida urgente a implementar pelas autoridades, pois que também desta crise se tornou clara a evidência de que os consumidores são muito responsáveis porque cederam com demasiada inocência ao marketing agressivo das empresas, sem o necessário crivo do juízo crítico.
Neste sentido, penso que os consumidores são também eles responsáveis -
e disso devem tomar consciência - na medida em que preferiram agir impulsivamente de modo a alimentarem a sua necessidade insaciável de
status, irresponsabilidades essa que resultou na difícil situação de endividamento em que actualmente se encontram muitas famílias e indivíduos.
Com a verdade dos factos e boas estratégias de gestão dos recursos será possível agir em função da realidade financeira. Doutro modo, existe o risco da negação de dados significativos e o prolongamento das ilusões consumistas que até agora alimentaram o crescimento do modelo económico ainda vigente. E os sinais de que a terapia escolhida pelos EUA sabe muito a remédios antigos para novos males continuam implícitos na estratégia agora anunciada pelas autoridades americanas.
Um desses fortes sinais da tormenta escura que pode ainda vir por aí está na dívida total dos Estados Unidos que já ultrapassa 300 (!) por cento do PIB – um rácio muito superior ao máximo atingido durante a Grande Depressão (ver gráfico). Se este e outros sinais e acontecimentos drásticos que estão ocorrendo não comprova a gravidade da situação, não sei o que mais será preciso.
Resta ver como se comportarão os países BRIC, a Ásia, a Europa e o nosso canteiro à beira-mar plantado, no decorrer desta derrocada anunciada que se afigura global.
Uma coisa é certa: apesar de rara quanto à gravidade, esta é mais uma fase cíclica (como assim
aqui postei no início de 2008). Resta a consolação que o povo diz e com razão que "depois
da tempestade vem a bonança".
Haja por isso esperança em dias melhores.
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