Os Mitos da Economia PortuguesaO Professor Doutor Álvaro Santos Pereira escreveu um livro sobre a Economia Portuguesa. Até agora, nada de novo nesta constatação, até porque o Senhor Professor é Doutorado e docente em Economia, de modo que não se esperava que escrevesse sobre design gráfico ou a agricultura. O que é extraordinário constatar é o livro em si mesmo, além da excelência que revela sobre a pessoa que o escreveu. Há que louvar este homem pelo caminho que escolheu seguir.
O Professor Santos Pereira é um homem jovem de 35 anos. Estudou em Coimbra (uma dupla coincidência que partilhamos, já que também passei na mesma época pela Faculdade de Economia antes de criar juízo e mudar para a minha área científica) e doutorou-se em Economia na Simon Fraser University em Vancouver. Santos Pereira lecciona na Universidade de York e não perdeu contacto com Portugal e com a realidade portuguesa, antes pelo contrário: mesmo emigrado continua atento e mostra ser muito perspicaz acerca do que se passa, numa visão alargada desde o curto até ao longo prazo.
O livro “
Os Mitos da Economia Portuguesa” possui uma essência rara em volumes deste género: trata-se de uma análise de leitura acessível, elaborada por quem sabe sobre o que fala e possui um visão isenta acerca da situação, decerto reforçada pela distância mas muito mais resultado da sabedoria e qualidade científica do autor.
Entre vários temas abordados no livro, destaco O
Mito dos Brandos Costumes, O
Mito dos Salários Baixos, O
Mito da Produtividade, o
Mito da Paixão Educativa, o
Mito do Perigo Espanhol, o
Mito do País Pobre e o
Mito do País Sem Futuro, e quero salientar um Mito em particular: O
Mito da Universidades, já que é uma realidade que conheço de perto desde à mais de uma dúzia de anos e sobre a qual tenho uma opinião crítica que se aproxima bastante daquela revelada pelo autor.
Neste aspecto nas Universidades e sobre um dos capítulos do livro denominado o Mito das Universidades, não resisto em colocar aqui 2 trechos em cuja leitura senti uma especial satisfação e sobre os quais creio ser interessante reflectir:
I - «(…)
não se consegue compreender com é que o Algarve tem uma Universidade de qualidade sofrível em quase todas as áreas de investigação. Ora, no lugar onde está localizada, a Universidade do Algarve deveria ser uma das melhores do país, se não mesmo a melhor. De facto, é surpreendente como é que o Algarve não consegue atrair professores estrangeiros de craveira internacional ou, pelo menos, de qualidade superior à média nacional. Porquê? Sabendo da qualidade de vida que poderiam usufruir no Algarve, não seria possível à universidade algarvia atrair professores de qualidade internacional? Claro que sim. Se as condições forem boas (financeiramente e a nível de investigação), muitos professores ingleses, alemães, ou holandeses de 40, 50 ou 60 anos não se importarão de deixarem as suas instituições e os seus países para virem leccionar e fazer investigação para o Algarve. No entanto, actualmente, poucos ou nenhuns o fazem. Porquê? Porque os salários e a fiscalidade não são competitivos, a qualidade dos departamentos e faculdades não é das melhores, e os incentivos à investigação deixam muito a desejar. E porque é que os sucessivos Reitores da instituição algarvia não fazem nada (ou quase nada) por isso? Porque não existe vontade de incomodar os interesses instalados não existe coragem para lutar contra práticas enraizadas durante décadas de imobilismo e marasmo académico. E este não é um mal exclusivo do Algarve. É um mal extensivo à grande maioria das universidades e politécnicos portugueses.».
Mais adiante diz o Professor Santos Pereira:
II - «
Uma da queixa mais recorrente dos alunos(as) portugueses(as) é que a competência de muitos dos nossos docentes universitários deixa muito a desejar. Em parte, o descontentamento dos estudantes prende-se mais com as expectativas quando iniciam o ensino superior do que com a competência dos docentes. Para o bem e para o mal, a maioria dos professores do ensino superior é bem menos acessível do que os professores do ensino secundário, o que, de certa forma, afasta os alunos. Mesmo assim, é indesmentível que as queixas dos alunos são em grande parte justas e reflectem uma realidade que é, muitas vezes, escondida. A verdade é que, gostemos ou não, muitos dos professores são claramente incompetentes e/ou não querem simplesmente saber do bem-estar ou das preocupações dos alunos. Afirmar isso não é popular (…) todavia, esta é a pura verdade. (…) Vejamos então algumas das causas desta situação:Em primeiro lugar, até à pouco tempo, para se ser considerado um bom professor era aconselhável: dar aulas interessantes e/ou fazer exames difíceis e/ou chumbar muitos alunos. Quanto muito os senhores professores escreviam alguns artigos (poucos) em revistas nacionais (publicar numa revista internacional era um privilégio reservado aos iluminados e/ou aos génios) e /ou escreviam sebentas ou um livro para leccionar aos alunos. (…) A fama de um docente chegava ao rubro quando, depois deter chumbado muitos alunos (…) o senhor professor fazia as suas provas de agregação e de cátedra, passando a professor catedrático, ou seja, a Excelentíssimo Senhor Professor Doutor. O auge da carreira passava pelas escrita e defesa de uma tese de doutoramento, que constava de umas largas centenas de páginas (com centenas de páginas de revisão da literatura existente), no fim da qual a tese era publicada como livro ou era colocada numa estante como prova da extraordinária e sabedora sabedoria do mesmo Senhor Professor Doutor. (…) Ora hoje em dia as coisas já não são bem assim, apesar de ainda persistirem muitos rasgos do imobilismo e do conservadorismo tradicional (…) apesar de termos gasto centenas de milhões de euros a educar novos mestrandos e doutorandos, tanto no país como no estrangeiro, ainda não houve nenhuma revolução ou pelo menos uma alteração radical nas universidades nacionais ao nível do recrutamento e da reciclagem dos docentes e investigadores. Em segundo lugar, uma das causas da incompetência dos docentes nacionais prende-se com o facto da renovação dos quadros ser demasiado lenta. Existem de facto números clausus nos diversos escalões académicos e só quando alguém se reforma (ou morre) é que um professor num escalão inferior pode progredir. Não interessam as publicações ou a qualidade do ensino, pois a progressão só poderá acontecer quando uma vaga no escalão superior abrir. (…) Vale mais fazer entrar na política ou fazer sucessivos trabalhos de consultadoria. Finalmente, os incentivos à mediocridade da docência são multiplicados de forma exponencial por existirem nas universidades demasiados professores, que permanecem no quadro mais por antiguidade ou motivos políticos do que por mérito académico. As listas das faculdades portuguesas são longas e extensas, com dezenas de professores e assistentes nos seus quadros. Por um lado, existem professores com lugar efectivo que mantêm o seu lugar por largos períodos enquanto ocupam cargos políticos ou no sector privado. Por outro lado, em muitas universidades existem interesses corporativistas enraizados que impedem uma maior renovação dos quadros. Deste modo a renovação das universidades portuguesas faz-se a conta gotas e a qualidade do ensino sofre.Devido a esta qualidade de incentivos, grande parte dos nossos professores universitários não faz nada, ou praticamente nada. Não publicam, não se interessam pela qualidade do ensino, e não promovem a reciclagem dos conhecimentos. Como antigamente, ser-se bom professor é bastas vezes função do número de alunos reprovados em vez de excelência da docência. Perante este clima de inércia e compadrio, não é de espantar que muitos dos nossos doutorandos prefiram ou tenham que permanecer no exterior, agravando assim o problema da fuga de cérebros nacional.Assim, as prioridades do novo estatuto do ensino superior deveria enfatizar a mobilidade, a renovação, e a qualidade do pessoal docente. É por isso fundamental:
1 – Acabar com as promoções à docência de alunos doutorados pelas instituições que concedem o grau (pois o incesto universitário promove o compadrio e o imobilismo académico);
2 – Aumentar a transparência dos concursos públicos de contratação de novos professores e investigadores (acabando com a vergonha por todos reconhecida dos “concursos fantasmas”, em que as vagas são atribuídas a priori, sem levar em conta o mérito e a competência dos candidatos);3 – Apostar na renovação dos recursos das instituições;
4 – Promover o recrutamento a nível internacional (para aumentar a qualidade do ensino e promover o fim do compadrio académico);
5 – Fomentar elevados critérios de exigência a nível da investigação e do ensino;
6 – Introduzir e expandir as práticas de avaliações dos docentes, tanto pelos seus pares como, principalmente, pelos alunos (para aumentar a qualidade do ensino, pois quem não deve não teme).»Este capítulo sobre o Mito das Universidades é um colar de pérolas que ao ser desfiado inclui ainda outras questões importantes tais como “Porque é que as nossas aulas não prestam e a nossa investigação é sofrível?” ou “Porque é que os estudantes preferem beber cerveja a (ao invés de) estudar?”.
Muito bem, bem-haja ao Senhor Professor Doutor Álvaro Santos Pereira pela clareza de raciocínio, no empenho em promover a excelência e pela coragem que demonstra no que escreve. Que venham outras mais reflexões sem subterfúgios ou hipocrisias, que essa é uma das soluções para a mudança efectiva dos paradigmas ineficazes sobre os quais assenta o nosso débil desenvolvimento.