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quarta-feira, 13 de maio de 2009

A competição dominada pela inveja ou impotência do Homem em relação ao seu destino

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Caravaggio - Alegoria da luta dos mais novos sobre os mais velhos


Escreveu recentemente Francesco Alberoni que a competição entre pai e filho muitas vezes é dominada pela inveja. Nessa tese, o sociólogo/jornalista projecta e generaliza que as pessoas se identificam mais com quem consideram melhor e mais forte.

Nesta linha de pensamento, Alberoni afirma que “nós identificamo-nos com quem consideramos melhor, mais forte, mais capaz ou mais hábil e queremos ser iguais. Se o amamos, admiramo-lo e consideramo-lo um líder. Se, pelo contrário, prevalece o rancor, invejamo-lo. Gostaríamos que não fosse tão valente, gostaríamos que se enganasse. E, para mostrar aos outros e a nós próprios que valemos mais que ele, caluniamo-lo, denegrimo-lo. E isto pode insinuar-se entre próximos. Surge entre amigos, entre irmãos, entre marido e mulher, colegas (...) quando um é bem-sucedido e o outro não”.

A propósito daquele raciocínio quasi-freudiano, recordemos o Complexo de Édipo: Freud afirmou que o filho varão ama o pai e pretende o lugar deste; admira-o mas ao mesmo tempo está em competição com ele. Segundo a teoria freudiana, aquele antagonismo explica com o desejo do menino em ter a mãe só para si (no caso das meninas, ter o pai só para si competindo desse modo com a mãe, o que se veio a denominar de "Complexo de Electra").

Para nomear a sua teoria acerca do drama encenado tipicamente por pai, mãe e filho, Freud utilizou a história de Édipo Rei, tragédia de Sófocles na qual, resumidamente, o Rei Laio tendo um filho de nome Édipo, resolve consultar o Oráculo para saber o destino e recebe a notícia de que o seu filho seria um dia seu parricida. Sabendo disto, pede a um de seus servos que leve a criança para longe dali e a mate.

Contudo, o servo poupa a vida da criança e leva-a para um lugar distante do reino. Acolhido por uma família, Édipo cresce e, quando adulto, volta ao seu reino de origem.

No regresso às origens, o jovem Édipo mata (por impulso de honra) um velho que encontra no caminho (que na realidade era o velho Rei Laio) e que lhe exigia que aquele jovem lhe desse primazia na passagem. Édipo, desconhecendo a identidade do seu opositor e num acting-out violento, concretiza o trágico destino familiar através do parricídio profetizado pelo oráculo.

Mais adiante no decorrer do enredo, também sem consciência do crime incestuoso, casa com a Rainha viúva Jocasta, sua mãe, que mais tarde compreende quem era o jovem que se fez Rei, e se suicida, não suportando a dor de saber que o seu filho antes perdido, se tornara seu Senhor e amante por tão tortuoso destino.

Não suportando também ele ver a verdade (assim como a consequência éticas e moral da censura social), Édipo comete um acto simbólico dramático ao arrancar os seus próprios olhos. Cego, fragilizado pela culpa e pela dor da consciência dos seus actos, renuncia ao poder e parte para um exílio errante.

A tragédia prossegue na narrativa de Sófocles, mas a essência do Mito foi daquele enredo retirada por Freud para denominar o constructo teórico edipiano.

O que Freud não considerou foi que, originalmente, a tragédia de Sófocles quis mostrar, no âmbito da sua época, a impotência do homem em relação ao seu destino. A inveja, o desejo, o egoísmo, o prazer, a violência, a posse, o medo da morte, a negação da realidade, a arte da fuga, o acto impulsivo, a culpa, a tristeza, a consciência de si, o crescimento doloroso, o ritual e o simbólico, a manipulação, a bondade, a revolta, a dúvida e a repressão, a inocência, a crueldade, a crença e o Divino, a luta pelo poder, a renovação do novo sobre o velho, são inúmeros os retalhos psíquicos e emocionais do imenso manto que cobre o Homem como actor cultural na representação de si face ao prolongamento revisto nos outros.

E isso tem muito mais interesse e explica muito mais daquilo que somos, o que queremos e o que fazemos enquanto Humanos do que os inúmeros e repetitivos padrões de encenação familiar.


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