
Eis uma notícia publicada no Jornal Público de 23 de Outubro e hoje republicada no jornal "i" por Patrícia Silva Alves.
Transcrevo o artigo mais recente porque confirma um assunto sobre o qual já havia postado aqui a minha opinião, baseado em alguns dados até ao momento existentes e que agora são inequívocamente reconfirmados.
« O Plano de Campanha n.º 1 (34) esteve 70 anos em segredo. Em 2005, Manuel Ros Agudo encontrou a prova de que o general espanhol queria conquistar Portugal :
Francisco Franco, o General que liderou Espanha com punho de ferro entre 1939 e 1975, planeou invadir Portugal durante a Segunda Guerra Mundial.
A intenção estratégica é confirmada por documentos que estiveram em segredo durante 70 anos e que o investigador Manuel Ros Agudo encontrou nos arquivos da Fundação Francisco Franco, em 2005.
O professor da Universidade de San Pablo, em Madrid, foi o primeiro a ler a frase escrita num documento produzido pelo estado-maior espanhol a pedido de Franco em 1940: "Decidi preparar a invasão de Portugal, com o objectivo de ocupar Lisboa e o resto da costa portuguesa". Era o Plano de Campanha n.o 1 (34), um documento com a classificação de ultra- -secreto revelado na conferência "A Península Ibérica na Segunda Guerra Mundial - Os planos de invasão e defesa de Portugal", do Instituto de Defesa Nacional (IDN).
O plano mostra que o Generalíssimo Franco tinha projectos expansionistas, apesar de não ter entrado na Segunda Guerra Mundial. Para os portugueses, é a confirmação de que as boas relações diplomáticas valiam sobretudo no papel.
O tratado de amizade e não agressão entre Portugal e Espanha tinha sido assinado em Março de 1939, mas em 1940 já Franco tinha o plano de campanha nas mãos.
António Telo, presidente do IDN, garante que se o plano fosse em frente Portugal sucumbiria: "Não tínhamos capacidade para nos defendermos, nem planos de ataque credíveis. Espanha tinha aumentado o seu arsenal na Guerra Civil e a Alemanha e a Itália tinham-na armado com tecnologia moderna de guerra."
À falta de meios somava-se a falta do apoio britânico, apesar da aliança entre Lisboa e Londres. "Inglaterra tinha outras prioridades. No máximo, os ingleses ajudavam-nos a ir para os Açores", defende o director do IDN.
Esse era o plano português, delineado para um eventual ataque espanhol: transferir os órgãos de soberania para o arquipélago.
Manuel Ros Agudo, professor de História Contemporânea, pensa que Salazar nunca soube das intenções do generalíssimo: "Era um documento secreto. Apenas Franco, o ministro da Defesa, o chefe do Estado-Maior das Forças Armadas e os gráficos sabiam da sua existência."
Que futuro para Portugal?
Para Ros Agudo, ou os portugueses aceitavam o ocupante ou Portugal teria um governo marioneta temporário: "No caso de haver resistência e descontentamento, estou convencido de que Franco arranjava um governo de acordo. Não forçava a integração e poderia mesmo dar depois a independência a Portugal." O historiador espanhol admite que a invasão seria uma acção preventiva, para Espanha ganhar vantagem sobre um eventual avanço britânico na Península Ibérica.
O historiador Fernando Rosas, também presente na conferência, lembra que a principal operação para Franco seria a tomada de Gibraltar. E a entrada em Portugal era a tentativa de "remediar um erro". "Espanha chamava assim a parte que lhe competia, completando um velho desiderato das elites espanholas", que passava por retomar o poder em Portugal, perdido em 1640.
Os entraves dos planos aos actos, faltou a Franco a aprovação das forças do Eixo (Alemanha/Itália): invadir Portugal significava declarar guerra a Inglaterra e, após sete horas de conversa entre Franco e Hitler, em Hendaya, em 1940, o Führer não ficou convencido. "Era uma utopia que não se podia concretizar e Franco não arriscou", justifica Ros Agudo.
Mesmo que Franco planeasse a invasão à revelia do Eixo, Espanha ainda se debatia com dificuldades económicas e falta de preparação militar para os cinco anos que a invasão iria exigir. Precisaria sempre do apoio alemão e italiano, sobretudo se o Reino Unido reforçasse as fileiras lusas.
A cúpula espanhola considerava mesmo que a existência de Portugal não fazia sentido, como provam os registos de uma conversa entre ministros dos Negócios Estrangeiros de Espanha e da Alemanha em Setembro de 1940:
- "Ninguém pode deixar de dar conta ao olhar para o mapa da Europa que, geograficamente falando, Portugal na realidade não tem o direito de existir. Tem apenas uma justificação moral e política para a sua independência pelos seus quase 800 anos de existência", referia Serrano Suñer ao homólogo Joachim von Ribbentrop, revela Ros Agudo. "Serrano só dizia o que Franco queria que se soubesse", lembra o Historiador.
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